quarta-feira, 25 de abril de 2018

Sobre errar e acertar.



(...) Sobre errar.

Foram os erros que cometi que me tornaram mais tolerante com os erros que os outros cometeram comigo. Foram as dores que causei, que me ensinaram a perdoar o sofrimento que me causaram.

Porque existe o erro e existe a escolha pelo que é errado. O primeiro é tentativa de acerto, faz parte da busca, do aprimoramento, do que é humano, do caminhar. Já a escolha pelo que é errado passa consciência. É opção de caminho, egoísmo, caráter, intenção. Viver é equivocar-se. Tentamos acertar do melhor jeito que podemos, com nossas limitaçoes e bagagens.

Buscar ser feliz é estar exposto, é cometer muitos erros ainda
Entre tropeços e acertos, os erros são necessários. São eles que nos tornam mais humildes, é com os erros que aprendemos a acertar e a desculpar. A vida avança, e a gente segue tentando não errar tanto da próxima vez.

Andréa Beheregaray.

segunda-feira, 26 de março de 2018

Sobre os 40 anos e os pôneis velhos.



Bate os 40, a memória começa a falhar, a visão a nublar; a pele se cansa, descansa e desaba; o cabelo exige dez vezes mais cuidados, muita química quebra, pintar demais, arruína, se ficamos estressadas, ele cai. A coluna já não é uma Brastemp, se forçar demais, não volta. Mudamos a alimentação para evitar qualquer coisa que se possa evitar. Nossas noitadas não podem passar da meia noite, sob pena de virarmos zumbis exauridos o resto da semana, Na vida dos novos idosos, Netflix é rei. Já nem pensamos nas malditas celulites, elas venceram afinal. Mudamos o foco, da bunda para cabeça. Agora estamos preocupadas mesmo com as manchas na pele e as rugas que brotam rasteiras. A memória se esvai lentamente a cada rosto que fingimos lembrar, sem agenda não rola, lembrar nome virou loteria. Os dentes também exigem cuidados, afinal com rugas, celulite, gagás, esquecidas, ceguetas, e desdentadas não dá!
Para completar quando a gente envelhece, encolhe. Eu comecei sutilmente a encolher e meu nariz anda crescendo, basicamente um pônei velho, só não fiquei surda ainda.
Terceira idade é o óh, ainda bem que existem as selfies e suas edições para nos salvar do naufrágio completo. Se por ai eu te encontrar e não reconhecer, perdoe, os 40 anos me atingiram em cheio.
Andréa Beheregaray

sábado, 24 de março de 2018

O tipo de gente que eu gosto.




Gosto de gente assim,
quer, quer,
não quer, não quer.
Sem disse que disse,
sem chove e não molha.
Tá incomodado, fala
Tá atrasado, corre
Tá magoado, diz
Tá interessado, vai à luta
Gosto de gente assim
Sem nhénhenhem e sem frescura
Que fala o que quer
E esta preparado para ouvir
o que não quer
Sem desmoronar
Gosto de quem
Não tenta agradar a todos
Porque sabe que todos
De fato, não importam
Ou se importam com a gente
De verdade
Que a verdade arde feito
Metiolate
E que importância a gente
Dá pra quem está na luta
ao nosso lado
Gosto de gente assim
Que não se vitimiza
E não responsabiliza
O mundo pelo que é seu
Que assume a sua parte
Gosto dos inconformados
De gente que vai a luta
E não desiste
Até a última alternativa
Que corre atrás do que
Quer e acredita
Gosto dos apaixonados
De gente
Que não economiza afetos
Que se desculpa de coração inteiro
E diz sem medo o que sente
Que não faz jogos no amor
Gosto de gente
Que não corre da raia
E não vira a casaca
Que não se acha mais que os outros
Que assume o ridículo da vida
E a mediocridade de si mesmo
Que respeita e se faz respeitar
Gosto de gente assim
Que dá nó em pingo d`água.
Que detecta o problema
E busca solução
Não enrola,
Não faz fita, não faz manha,
que sabe bem o que quer.
Gosto de gente assim,
pão, pão, queijo, queijo
Que é ou não é
Que sabe que não vida
O problema não é ter problemas
Mas sim a condição de lutar.
Andréa Beheregaray.

segunda-feira, 24 de julho de 2017

Árvores Floridas



Seguidamente eu paro na rua, a pé ou de carro, e fico contemplando às árvores floridas. Eu conheço às arvores da minha cidade. Sei quando é tempo das rosas, das roxas, das vermelhas e amarelas. Todos os anos às vejo renascer e desflolharem-se para aguardar então uma nova estação. 
Amo árvores floridas.Passei muito tempo sem perceber a existência de tal beleza. Então hoje eu paro e as contemplo. Elas me lembram sempre que em meio ao caos de dias acelerados desta cidade naufragada, confusa e barulhenta, existe uma beleza invencível que se oferece gratuita. Poesia materializada em forma de flor. De uma delicadeza sólida e profunda, como são as suas raízes. 
Porque, assim como elas, é aquilo que não podemos ver que nos mantém em pé. Estão sempre lá dispostas e gratuitas lembrando que a vida é bruta e bela a um só tempo, profunda e frágil , sólida e delicada. Contraditória por excelência. 
Árvores floridas são pra mim a definição do que é a vida.

Andréa Beheregaray

quinta-feira, 20 de julho de 2017

Amores mortos




Os grandes amores acabam sim. A idéia de que se for verdadeiramente grande então nunca acaba é herança do período romântico e seu ideal de alma gêmea. Ideal que nos aprisiona e nos faz desmerecer os amores vividos como se grande e verdadeiro fosse um apenas.
Sem fita métrica para o amor, por favor. Todo amor, mesmo que findo, é uma experiência transformadora que nos revela. Alguns doem para sempre, outros não. Existem aqueles que jazem adormecidos até o reencontro, mas todos, esquecidos ou não, nos fizeram vibrar um dia.

terça-feira, 18 de julho de 2017

Memórias literárias.



Menina, muito menina ainda, eu já era uma afixonada em histórinhas. Ouvia repetidamente, na vitrolinha vermelha, Lps das minhas fábulas prediletas. Chapeuzinho Vermelho, Os três porquinhos e a coleção completa dos discos de Roberto Carlos. 

Mas foi aos 9 anos que descobri a magia dos livros. Meu pai levou a mim e minha irmã para passear na Feira do Livro de Porto Alegre. Em frente a banca de livros, não muito maior que ela, observava aquele aquele novo universo que se abria, quando ele disse que cada uma de nós poderia escolher um livro. Ali, diante da escolha, senti pela  senti pela primeira vez o delicioso prazer de comprar um livro. O livro escolhido foi 'Férias em um orfanato'.  Com ele descobri que ler também é VER. Ler era mágico, uma aventura possível do sofá da sala. A cada página eu consegui visualizar aquelas crianças e eu estive com elas quando conheceram o mar pela primeira vez.

Mas foi através do Círculo do Livro que fui definitivamente fisgada. Minha mãe era assinate e recebia a visita da representante e seu catálogo. Novamente me foi data a oportunidade de escolher o melhor presente que poderia receber, um livro. Escolhi Monteiro Lobato. Uma coleção linda e colorida composta pelas letras do nome do autor. Acho que não chegamos a completar seu primeiro nome, ficamos em MONTE e eu já estava completamente apaixonada pela leitura. Mergulhei nas aventuras de Emília, através do livro em 'Reinações de Narizanho', meu Deus como eu amava aquelas aventuras! Quando terminei o livro senti, e me lembro claramente, um misto de orgulho por ter lido meu primeiro livro grande ( grande em todos os sentidos) e um sentimento de vazio, pois agora, por tê-lo acabado, acabei também com o prazer de lê-lo. 

Deve ser nesse momento que adquira o hábito de comprar muitos livros e não concluir a leitura, só para depois ter o prazer de retornar à eles de novo e realizar assim novas e prazerozas descobertas. 

Na 6 série descobri a poesia. Alugava livros constantemente, um deles gostei tanto que nunca devolvi, tenho ele até hoje. Eu sei, é errado, mas quem pode me condenar por roubar poesia? Foi na biblioteca da escola João XXIII que conheci Cecília Meírelles, inspirada por ela e pelo professor de português Ricardo Silvestrin comecei a escrever poesias. Lembro da aula dele sobre a composição de Haikai ou Haicai, a poesia em 3 linhas. Aqui nascia o prazer de brincar com as palavras. As aulas de crase e vírgula eu pulei, desculpe professor, mas estas, estas eu trago viva nas minha memória afetiva literária. Muito obrigada.

E com Cecília aprendei a navegar. Li, reli e declamei Naufrágio, que hoje esbarrei sem querer nas redes sociais e descandearam todas essas memórias que vos relato. 

Cecília, te sei até hoje! Cecília quanto beleza!

Pus o meu sonho num navio
e o navio em cima do mar;
- depois, abri o mar com as mãos,

com as mão para o meu sonho naufragar

Minhas mãos ainda estão molhadas

do azul, do azul das ondas entreabertas,
e a cor que escorre dos meus dedos
colore as areias desertas

O vento vem vindo de longe ,

a noite se curva de frio;
debaixo da água vai morrendo
meu sonho, dentro de um navio…

Chorarei quanto for preciso, 

para fazer com que o mar cresça 
e o meu navio chegue ao fundo 
e o meu sonho desapareça

Depois, tudo estará perfeito;

praia lisa, águas ordenadas,
meus olhos secos como pedras
e as minhas duas mãos quebradas
(Cecília Meireles).



Ler para mim é puro deleite. Quanto prazer encontro nas palavras! Que sorte a minha ter
tido a oportunidade de descobrir os livros. Fonte de prazer e possibilidade de conhecimento. O livro nos aproxima de universos distantes e diversos, nos faz melhores diluindo nossa cegueira e ignorância. Ler é uma porta aberta para um mundo. Escrever é alquimia, ler é mágico. E eu sou apaixonada por magia.        

Andréa Beheregaray   

sábado, 15 de julho de 2017

Ser.




(...)
''O que escrevo, o que diz de mim? O que conta do que sou, do que sinto? Resumo, pista, confissão? O que escrevo me reduz ou conduz a imaginação? Eu sou minha palavra ou elas me são? Escudo, ponte, brincadeira, janela, carícia, açoite ou ventania? O que seu olho pode ver? E seu coração, o que diz?

A tradução que você faz, não diz de mim, diz de você. Se para você eu sou apenas palavras, filigrama de um mundo tão particular assim, tão resumido é porque, por distração, desinteresse ou incapacidade tuas mãos tocaram apenas a superfície desse universo tão vasto e profundo que é ser uma pessoa. Não me resuma apenas por não ser capaz de me compreender. O que sou não cabe aqui e nunca caberá. Eu sou uma pessoa. Eu sou uma pessoa."